Nas entrelinhas: Continue não me levando tão a sério assim!

adaptando

Você me perguntou porque eu havia parado de escrever sobre as coisas que sinto. Arregalei os olhos como se estivesse surpresa. Aquela era uma questão recorrente, de fato, mas eu não achei que estivesse tão óbvio assim. Dei de ombros e disse em outras palavras que a culpa era da sua falta de interesse. Quero dizer, textos como esse continuaram nascendo na minha mente durante todas as noites de insônia. Estou absolutamente familiarizada com as incógnitas que preenchem esses parágrafos, mas cansei do drama. Não quero mais impressionar ninguém. Nem o espelho.

Te culpo um pouco por ter roubado minha intensidade corriqueira. Mas são tantas fases e depois de você foram tantos chefões quase invencíveis. A tal da inocência a gente perde com a vida e as lições do cotidiano nos ensinam a preservar o tempo que sobra. Foi assim que me dei conta de que às vezes é mais fácil simplesmente deixar a dor na forma mais bruta. Sem críticos ou curiosos que opinam sobre as escolhas que fiz e a profundidade das cicatrizes que ficam.

Algumas coisas ainda me assustam e não sei se vai fazer sentido dizendo assim, mas elas é que me fazem lembrar de você. Será que ainda compartilhamos da mesma estranheza do mundo ou nos transformamos em velocidades tão diferentes ao ponto de nos estranharmos? Talvez eu nunca descubra.

Das vontades que tive, a única que sobreviveu ao tempo é a de dizer um monte de besteira sem ter certeza e não me importar com as consequências, como costumava ser nos intervalos das aulas de sociologia no caminho até a cantina. Você parecia me conhecer tão bem ao ponto de não me levar tão a sério o tempo todo. Ouvia minhas teorias e pedia bis. Nunca mais encontrei alguém que fizesse isso tão bem.

Sobre a Autora: Bruna Vieira tem 20 anos, mora em São Paulo é escritora, colunista da Revista Capricho e blogueira. Nasceu no interior de Minas, formou-se como técnica em informática Industrial pelo CEFET-MG em 2011, mas o que gosta mesmo de fazer é transformar sentimentos em palavras. Veja mais em: http://depoisdosquinze.com

Nas entrelinhas: Por que não eu?


Por mais evoluído que eu tente ser, rejeição ainda me machuca muito. Não tenho distinção quando se trata do assunto: me sinto ferido do amor platônico que nunca soube que existia algo ao telefone desligado na minha cara num sábado à noite. Faz com que eu me sinta mal comigo mesmo e admito que tem a ver com o tal problema amoroso, mas com o fato de atingir diretamente meu ego. Touché! É como se espetassem minha autoestima e jogassem lá pra baixo pra eu ficar cantando Leoni no sofá. Por que não eu?
Parei pra pensar um pouco em como ser rejeitado me afetava. Sabe quando você se sente um lixo esquecido na lixeira de um apartamento quando os donos viajam? A sensação é essa, de desamparado e dor, de pouco valor. Você começa a se achar feio, a culpar sua aparência, a questionar seu nível de intelectualidade e até quão interessante você é. O mais incrível é que talvez você nem quisesse tanto a pessoa assim, mas isso te abala.
Noutra semana dessas saí com alguém que queria muito conhecer. Papo bacana, estendemos, sexo incompatível e fim de papo. Nem uma palavra sequer depois do ocorrido. Nem um “não gostei de você, mas podemos ser amigos”, afinal de contas o assunto fluía e a gente conseguia falar sobre uma infinidade de mundos em um minuto. Mas por que eu me importava tanto assim se eu mesmo senti que não era quem eu queria? Por conta do descaso. E eu tenho ânsia de desfechos, aprendi que as reticências dão muita agonia já que nenhum dos três pontinhos encerra coisa alguma.
Pensando nos amores que tive, alguns até me deram bons desfechos. Mas não colava aquela ideia de que simplesmente não combinávamos. Não, quando a gente toma um pé na bunda, a gente quer realmente sentir o pé na bunda e saber a marca do sapato. Acho que é uma maneira que encontramos de justificar, pra fazer com que nos sintamos melhores conosco. Um tipo de “aquilo não tem a ver com o fato de eu gostar de séries e ser sedentário, é por conta de outra coisa”. Só que tem muita coisa que não tem justificativa e não oferece desfecho. Não bateu o santo, a pegada não agradou, o beijo enrolou. E talvez a gente sinta isso e nem queira muito, talvez nós mesmos colocássemos um ponto final na história mais tarde, mas a rejeição bota lenha na fogueira e faz a gente cismar de pés juntos que queria a tal pessoa.
Já me senti horrível porque preferiram algum amigo ou conhecido a mim. Já fiquei mal por dias por me achar um mala já que aquela resposta no celular nunca chegou. Cansei de tentar culpar algo em mim até entender que pessoas vêm e vão naturalmente e que sentimento ou empatia não acontecem por mérito nosso, mas são sentimentos que florescem. A nós cabe a missão de sermos nós mesmos, de alimentarmos nossas paixões ao nosso jeito e torcer pra que a pessoa se identifique, goste e fique. Também tenho tentado trabalhar melhor a mensagem de que não dependia de mim, de que fiz o máximo que podia e que não há nada que eu possa mudar pra conquistar alguém.
Elimino a culpa dos amores que eu não queria que acontecessem, convivo com o incômodo dos que não quiseram acontecer comigo. E é um trabalho árduo isso, confesso. No fim, por mais que eu tente, eu sempre acabo voltando à canção do Leoni e me oferecendo. A diferença é que a oferta é imaginária, e se dissipa bem mais rápido. Não atravessa a noite. Se não tem nada pra depois, também não vai ser eu.

Sobre o autor: Daniel Bovolento é um carioca, redator publicitário. Atualiza o Entre Todas as Coisas, escrevendo textos sobre amor, comportamento e cia.

Nas entrelinhas: Entre o começo e o fim


Quando alguém me pede para me lembrar de você, não me lembro do nosso primeiro beijo. Do primeiro encontro, o primeiro abraço, o primeiro eu-te-amo. Não me lembro dos últimos também. Não me lembro da primeira vez em que você visitou a casa dos meus pais, todo sem graça, sem saber direito como agir com aquele que, na época, durante nossa adolescência, tinha poder pra te mandar pra bem longe. Nem lembro de quando você bateu a porta e me deixou em meio a tantos questionamentos: "que raios eu tinha feito de errado pra você deixar de me amar, assim, do nada?" (sem saber que, na verdade, a gente deixa de amar aos pouquinhos).

A primeira coisa que me vem à cabeça quando alguém fala seu nome não é nosso começo conturbado, nem nossos fins reticentes. É o nosso meio. É ali que eu te encontro. Naquele durante em que eu já te conhecia o suficiente para te amar como louca, mas sabia pouco da vida e, por isso, não tinha deixado de te amar ainda. 

Eu me lembro dos sorrisos que você me dava tarde da noite, na escuridão do quarto, antes da gente cair no sono no meio de uma semana qualquer. Eu me lembro das conversas sem sentido que a gente tinha depois de ver um filme com alguma reflexão filosófica no fim. E do quanto a gente sempre gostou de ler livros ao mesmo tempo para, depois, poder discutir o que cada um achou sobre ele. 

Eu me lembro de você na rotina, no dia a dia, de segunda-a-sexta, quando a vida não era tão feliz e fácil como nos finais de semana. Porque eu sempre achei que tinha um pouco de vitória nos casais que conseguiam se amar na normalidade da semana, na ausência de grandes novidades, no amor sem grandes declarações. 

Foi no meio que você me disse que eu era um pouquinho a sua salvação. "É por sua causa que eu vou passar nessa vida acreditando no amor. Porque tem coisa mais triste do que viver todos os dias e não acreditar nisso?". E eu nunca te disse de volta que você tinha me salvado também. Amar você, ainda que por tempo determinado, foi saber que o amor existe. O louco, o desenfreado, e o calmo e tranquilo. O amor que queima e o amor que apaga. Você me mostrou os dois.

Eu não sei te odiar pelo fim porque eu sempre lembro do entre. Entre o "eu te amo" e o "me esquece". Entre o "pra sempre" e o "nunca mais". Entre o "casa comigo?" e o "vou providenciar os papéis do divórcio". Entre o "eu cuido de você" e o "se cuida". Entre o "o único amor da minha vida" e o "foi só meu primeiro amor". É pelo o que existiu entre os nossos extremos que eu te amei tanto. E é também por ele que, de alguma forma que eu não sei como explicar, eu continuo amando: a lembrança do quanto a gente foi feliz.

Sobre a autora: Karine Rosa - Quase jornalista, quase 22 e quase gente grande. Um rascunho de escritora que fica por aí acreditando nas pessoas, nos sonhos e no lado bom das coisas. Daquelas pessoas - loucas - que acham que o amor resolve tudo. Tudo. http://www.karinerosa.com/

Eu conheci a Isabela Freitas! + Resenha: Não Se Apega, Não

Foto: Genilson Coutinho
Esse post é super especial! Já faz um tempinho que aconteceu, mas com toda essa loucura de viagem, eu só tive tempo de falar sobre como foi essa experiência muito especial agora. 

Dia 19 de outubro foi o lançamento do Não Se Apega, Não aqui em Salvador. A autora, a fofíssima escritora e minha blogueira favorita, Isabela Freitas, esteve aqui pra autografar os nosso exemplares e tenho que dizer: que mulher adorável, gente! hahahaha Ela foi incrivelmente pontual e dedicou um tempo bem bom pra gente. (Tem uns autores que assinam e tchau, né?) Mas a Bebela conversou, falou sobre o nosso sotaque (o dela é uma graça! hahaha) e eu disse pra ela os efeitos que o NSAN teve na minha vida. Mas disso eu falo mais pra frente. 

Foto: Genilson Coutinho
O lançamento era às 16h, mas eu cheguei às 12h pra garantir um dos primeiros lugares, já que todos os eventos da Intrínseca costumam ser bem cheios. Dei sorte, consegui ser a nona de uma fila que já estava formada quando eu chegar. O chato foi sofrer de ansiedade durante 4 horas. O bom foi que eu conheci algumas garotas na fila, algumas já se conheciam de outros lançamentos, outras (como eu) foram enturmadas lá.  Acreditam que tinha uma garota IGUAL a Isabela na fila? Por coincidência, ela é minha xará! hahahaha 

Bom, como eu já disse, a Isabela Freitas foi um amor! Tirou selfie comigo, assinou meu livro com uma dedicatória muito linda (com o meu nome escrito do jeito certo ♥). Detalhe: A linda (eu) estava tão nervosa que saiu falando na selfie e toda destronchada na foto do Genilson! hahahaha Mas a Bebela tá diva, então, who cares! 



Comprei o NSAN pensando no lançamento e em como eu queria conhecer a Isabela. Tinha um monte de coisas pra dizer, sobre como ela é uma pessoa com o coração enorme, sobre como as palavras dela me ajudam e etc. Depois de ler o livro, tinha ainda mais coisas: sobre como passei por cima de um montanha de problemas e inseguranças depois da leitura, sobre como aprendi a me amar e até a parar de sentir autopiedade. Com coração não se brinca. 

Estava tão nervosa, que acabei por não falar quase nada! hahahaha Mas espero as próximas oportunidades! #VoltaBebela



Eu tenho o costume de marcar as partes que mais gosto nos livros que leio. No NSAN, preferi não colar post it. Ia acabar colando no livro todo! Quando li a sinopse, esperei um livro bem aka Capricho, mas olha... Não. A Isabela (personagem do livro) passa por situações que toda garota já passou ou vai passar nada vida. Contudo, não é repetitivo ou imaturo, o que torna-o diferente de tudo que eu já li sobre o amor, é a inteligência e o conhecimento que a autora tem do assunto.

Por que não sofrer por um coração partido? Qual a importância do amor próprio? Qual o sentido de ser feliz? Isabela Freitas responde tudo isso e bem mais. Esperamos ansiosamente o próximo livro ♥ 

Ah! No próximo domingo, dia 9/11, tem lançamento de "Pó de Lua" aqui em Salvador. A Clarice Freire está autografando exemplares a partir das 16h na Livraria Cultura do Salvador Shopping. Acho que não poderei ir por causa do ENEM, mas vou tentar!

Beijo!

Nas entrelinhas: "Amar vale muito mais a pena."


A única coisa que eu tenho certeza nessa vida, é que não tenho certeza de absolutamente nada. Levei muito tempo para descobrir que certezas são quase sempre frustrantes. Levamos uma vida inteira para provar ao mundo o quanto estamos certos e perdemos as melhores oportunidades no caminho. Juramos que somos capazes de fazer o amor desabrochar em um ambiente inóspito, quando na verdade, a gente é quem inventa possibilidades em meio a tantas improbabilidades. Sempre que me obrigo a gostar de algo por muito tempo, me frustro. Porque percebi cedo demais que, qualquer que seja o sentimento, para ser de verdade, é preciso que a gente solte as amarras e aceite que laço enfeita, não prende.

Decidi não esperar demais. O ser humano tem essa mania boba de se prender as esperas da vida. Sempre torci pela recompensa, paciência e compreensão, mas dessa vez, só dessa vez, resolvi aceitar o que me é dado. Não estou dizendo que vou prostituir meus sentimentos e entregar de bandeja meu coração, mas aceitarei o que acho que mereço sem esperar pelo "plus" por bom comportamento que nunca vem. Ninguém tem bola de cristal, entende? E aí eu vi que se quero alguma coisa, tenho que pedir. Se almejo muito algo, tenho que lutar por aquilo. A vida não é simplesmente esperar que tudo saia como o planejado. Não é sentar em uma poltrona confortável e achar que o mundo tem a obrigação de me servir. A vida não se trata de esperar. A vida não foi feita para preguiçosos.

O que eu sei é que perdi muito tempo dando valor às coisas erradas. Então, que fique aqui meu juramento de recomeço. Vou começar largando meu notebook e dando um abraço em minha mãe. Vou dar continuidade ligando pro meu namorado pra dizer que é um prazer imenso em tê-lo comigo. Vou correr pro quintal e beijar meu cachorro pra mostrar que, mesmo tão ausente, o amo como se fosse um filho. Vou desaprender essas coisas que o corre-corre dos dias impregnam em nossa alma. Vou esquecer essa urgência em ganhar a vida e ter uma necessidade absurda de sentimentos sinceros. Vou fazer questão de me lembrar, todos os dias, que o saldo da minha conta bancária não substitui uma tarde repleta de conversas e risos e lembranças.

Desprenda-se de tudo o que te rouba o riso. E lembre-se que você não precisa perder as melhores coisas da vida, para ganha-la. Aproveite as pessoas que estão ao seu redor, enquanto elas estão. Eu não tenho certeza de absolutamente nada em minha vida, mas quando não estiver mais aqui, saberei que a única coisa que ficou de verdade, foi meu amor por todas as pessoas que amei como se não houvesse amanhã. Porque ele é a única herança que perdura no tempo e não há, no mundo, substituição que o apague.

Sobre a autora: Raiane Ribeiro, 20 anos, publicitária em formação, ariana cabeça dura e totalmente extremista. Criou o lema "chora e não me liga" para o blog e acabou adotando para a vida. Escreve sobre relacionamentos no www.blogdaraiane.com e desfruta do seu tempo livre no @RaianeRibeiroo.

Nas entrelinhas: E se eu amasse você?


Se na verdade eu virasse pra você agora e dissesse “acabou o amor, pode levar suas coisas”, você riria de mim? Riria do meu jeito sádico de jogar nas latas uma história embolorada que já não faz tão bem assim, que já não faz sorrir nem serve de travesseiro pra que eu durma bem, eu tenho certeza. Riria e me diria pra sossegar um pouco, meu bem, que a gente ainda não se machucou o bastante pra deixar o outro ir.

Se eu virasse e enumerasse quantas pessoas e estrelas eu olhei no caminho pra casa, você me diria que eu sou louca. Louca de pedra por achar que liberdade significa desatar a gente, quando eu bem sei que ficaria louca de verdade se fosse pra muito longe. E você também. Ficaria louco e entornaria os copos d’água no chão, numa paralisia instantânea que comunica: vocês se envenenam e ainda vão acabar matando um ao outro. Vão matar as dores, vão se matar de amores, vão mentir que não amam mais só pra não sentir cada fagulha queimando no peito. Vão mentir que é azia, que a gastrite subiu e atingiu o coração, vão vomitar meias-verdades como se jurassem de pés juntos diante da cruz. Ah, vamos sim, você vai rasgar as minhas cordas vocais pra eu não denunciar a loucura que seria deixar você.

Se eu olhasse nos teus olhos e dissesse baixinho que a gente é do tipo que se junta pra se destruir e não vê isso, que acaba com tudo e apaga os poucos sonhos e embola a roupa suja e põe o outro pra baixo do tapete pra esconder as partes feias, você me diria pra parar de pensar demais. Pra parar de achar que a gente merece ser feliz quando a gente merece o outro. Afinal tem tanto tempo e tanta coisa e tanta briga e tanto grito e tanto choro que nem dá pra lembrar, mas um dia a gente foi feliz. A gente foi e você sabe, você tenta lembrar, você arrisca que tenha sido até o segundo ano ou antes e nem adiantaria dizer agora que eu tava tentando salvar a gente quando fugi de você. Por que você não foge de mim ou me atira dum precípicio com o carro em movimento pra me libertar da maldição de ser infeliz?

Se eu te pedisse desculpas e tentasse consertar as coisas agora, será que daria tempo da gente ser um pouco mais feliz? Você teria vontade e os vizinhos perceberiam e sua mãe perceberia e meus amigos perceberiam que a gente não se arruinou tanto assim. Eu passaria a chegar mais cedo e você deixaria de desligar o celular pra sentar à mesa novamente. A gente brindaria e diria que é amor, dá até pra ver os lábios repuxando num sorriso menos mentiroso. Você dormiria do meu lado e eu desfaria as coisas da sala, com edredom a tiracolo e sem os cacos jogados do porta-retratos, e sonharia junto. E foi apenas um sonho. E a gente acordaria e eu diria que.

Se eu te confiasse um segredo e jurasse no pé do seu ouvido – antes de tirar a pólvora, colocar essa frase e te dar um tiro – contando pra você que nosso amor não passa de obsessão?

Sobre o autor: Daniel Bovolento é um carioca, redator publicitário. Atualiza o Entre Todas as Coisas, escrevendo textos sobre amor, comportamento e cia.

Nas entrelinhas: O amor


Semana passada liguei pro meu melhor amigo e convidei para um cinema. A gente não se falava desde o ano novo, quando tudo deu errado pro nosso lado. De tempos em tempos sumimos, falamos umas coisas horríveis de quem se conhece demais. Ele topou desde que fosse daqui pra frente, preguiça de conversar da briga e tal.

E fomos. Cheguei antes, comprei. Ele chegou depois, comprou água. Porque eu comprei os ingressos, ele comprou também uns doces e disse que pagaria o estacionamento. Porque ele pagaria o estacionamento, eu disse que daria a carona da volta. E com meu coração tão calmo eu voltei a sentir o soninho de sofá de casa com manta que sinto ao lado dele. A gente não se beija nem nada, mas quando vai ver pegou na mão um do outro de tanto que se gosta e se cuida e se sabe. Já tivemos nossos tempos de transar e passar nervoso e aquela coisa toda de quem ama prematuramente. Mas evoluímos para esse amor que nem sei explicar. Ele me conta das meninas, eu conto dos caras. Eu acho engraçado quando ele fala “ah, enjoei, ela era meio sem assunto” e olha pra mim com saudade. Ele também ri quando eu digo “ah, ele não entendeu nada” e olho pra ele sabendo que ele também não entende, mas pelo menos não vai embora. Ou vai mas sempre volta. Não temos ciúmes e nem posse porque somos pra sempre. Ainda que ele case, more na Bósnia, são quase quinze anos. Somos pra sempre. Ele conta do filme que tá fazendo, eu do livro. Os mesmos há mil anos. Contar é sem pressa de acabar. Se ele me corta é como se a frase que eu fosse falar fosse mesmo dele. É um exibicionismo orgânico, como se meu silêncio pudesse continuar me vendendo como uma boa pessoa.

São quinze anos. É isso. Ele me viu de cabelo amarelo enrolado. Eu lembro dele gordinho e mais baixo. Ele sempre comprou meus testes de gravidez, mesmo a suspeita nunca sendo nossa. Eu já fui bem bonita numa festa só porque ele queria me fazer de namorada peituda pra provocar a ex mulher. Minha maior tristeza é que todo novo amor que eu arrumo vem sempre com algum velho amor tão longo e bonito. E eu sofro porque com pouco tempo não consigo ser melhor que o muito tempo. E de sofrer assim e enlouquecer assim, nunca dou tempo de ser muito para esses amores porque estrago antes. Mas meu melhor amigo é meu único amor. O único que consegui. Porque ele sempre volta. E meu coração fica calmo. E ele vai comigo na pizzaria e todos meus amigos novos morrem de rir porque ele é naturalmente engraçado e gente boa e sabe todos os assuntos do mundo. E todo mundo adora meu melhor amigo. E eu amo ele. E sempre acabamos suspirando aliviados “alguém é bobo como eu, alguém tem esse humor” e mais uma vez rimos da piada que inventamos, do pai que chega pro filho e fala: sua mãe não é sua mãe, eu transei com outra”. E esse é meu presente dessa fase tão terrível de gente indo embora. Quem tem que ficar, fica.

Sobre a autora: Tati Bernardi, como é mais conhecida, nasceu em 1979 em São Paulo e formou-se em Propaganda e Marketing pela Universidade Mackenzie. Além da publicidade, Tati também dedica-se a literatura, já tendo quatro livros publicados, sendo os mais conhecidos: "A mulher que não prestava" e "Tô com vontade de alguma coisa que eu não sei o que é". Tati Bernardi consagrou-se com seu site, onde a maior parte do público são mulheres. Além disto, Tati também é colunista e cronista de revistas, como a Viagem & Turismo, blogueira e redatora da TV Globo. Além disto, fez cursos de pós-gradução na área de roteiro e cinema, e trabalhou muitos anos como redatora publicitária nas principais agências de propaganda de São Paulo, tais como W/Brasil, Talent, Leo Burnett e AgênciaClick.

Nas entrelinhas: Toque dele.


Chico, o meu amor tem um jeito denso que é só dele. Desses que a gente afunda e se perde e fica se perguntando como é que a gente foi se enfiar ali – mas eu nem penso em como sair. O jeito dele de soprar as coisas no meu ouvido, dum jeito que eu já me desfaço feito dente de leão e vou indo, assim leve feito brisa como a Clarice falou noutro dia. O meu amor tem um corpo que é só dele. E que se encaixa tão bem que no começo a gente dava choque, daqueles choques que a gente sente quando sabe que é o nosso amor e pronto.

E me faz um bem que ele mal sabe. Ou sabe bem e faz por isso.

O meu amor tem umas sobrancelhas semicerradas e uma expressão constante de quem desconfia de mim. Desconfia dos meus movimentos de quem tá pronta pra atacar – e ele morre de medo de cócegas. Parece criança pequena quando deita e dorme, no jeito dele que é tão dele que nenhum outro tem, mesmo com aquela coisa de que todo homem é igual quando dorme e tá doente. Espalhafatoso e fala baixo, Chico. E o tal do jeito manso aparece quando ele levanta os olhos pra me encarar por qualquer besteira. O cheiro dele também é forte. Tem suor e uma essência que eu adoro. E ele usa isso pra fazer charme. Ele não tem barba, mas quando cola o rosto no meu… Ah, eu sinto um arrepio, sabe? Ele me chama de minha menina e eu fico feliz por não precisar ter que ser mulher com ele. Já aguento demais lá fora e vez ou outra é bom poder chorar e ser frágil com alguém que não vai te mandar engolir o choro e encarar o mundo.

Se o mundo caísse agora, ele me abraçaria tão apertado que eu nem ia me sentir em queda livre. Com ele eu desabo e nunca caio, Chico.

Dia desses tava meio difícil porque eu viajo por Saturno e ele fica em Marte, como sempre. E ele não faz perguntas, Chico. Ele afirma. Ele afirma que vai ficar tudo bem e me diz se tem como não acreditar em alguém que te sorri com os olhos? Os braços do meu amor nem são tão fortes, nem são tão fracos, mas são dele. E dele é que chegam as coisas boas. As coisas se iluminam sempre que ele faz isso e daí que eu percebo que o que eu gosto nele não é só o toque dele. É desse jeito denso, cuidadoso, que me invade sem pedir licença, mas traz flores. É dessa coisa que me entende sem perguntar demais porque ele não gosta de discutir relação. Ele prefere ponderar e pondera tanto que eu já teria surtado se fosse ele. Chico, ele ama os meus amigos porque eles me fazem feliz. Ele ama uns dias ensolarados porque eu posso correr e isso me deixa feliz, mesmo que ele odeia ter que sair da cama às 6h pra me acompanhar.

O meu amor faz parte dos meus segredos. E viola os meus ouvidos com a sutileza de um furacão. Ele não me trata como presa, Chico. A nossa conquista é diária e ele me liga pra me dizer que se lembrou de mim. Você sabe o valor disso, não sabe? É o jeito brando dele que é só dele. E cada parte da parede do nosso quarto tem um pouco da gente e um pouco de música. Pra gente viver com som e melodia até no silêncio. Ele me conduz com maestria, Chico. Sabe onde tocar e ama o meu corpo mesmo que não seja nenhuma capa de revista. Mesmo que tenha que lidar com as alterações da TPM e ele me ama até quando eu tô inchada. Quando esperneio e digo trocentas vezes pra fechar a porta. Pra ir embora. Pra me deixar pra lá porque eu sou muito chata e tudo mais.

Ainda bem que ele vai na hora. Mas nunca vai mesmo embora.

Ele volta e diz que eu também sou o amor dele, Chico.

E daí eu vejo que não é só pelo toque dele de novo. É por ele todo. Principalmente quando ele me sorri com os olhos e fica tudo bem.

Sobre o autor: Daniel Bovolento é um carioca, redator publicitário. Atualiza o Entre Todas as Coisas, escrevendo textos sobre amor, comportamento e cia. 

Nas entrelinhas: "É amor. Juro."


Eu te amo, mas não sei como falar, como explicar, como agir, sei lá. Você murmura qualquer coisa e eu já tremo o cu de tanto nervosismo que a tua presença me causa. Me leve daqui. Me leve com você. Venha comigo. Mas não tenho para onde ir. Por mim, a gente pode ficar aqui, quietinhos dividindo sorvetes, cervejas, edredons e sonhos. Tanto faz a cama e o colchão. Você se importa tanto assim com isso?

Dia desses, eu tentei te esquecer de vez. Juro. Mas ai percebi que matar você em mim é o mesmo que morrer e continuar vivendo, sabe? Passaria o resto dos meus dias como zumbi recheado de dor e entalado de lembranças do que nunca viveu. Então, não morra não. Não antes de eu dizer que te amo. Não antes de você dizer isso para mim, também. Ou que vai pensar no meu caso. Ou que vai me levar contigo. Ou que ficará aqui comigo. Sei lá. Não se vá – nem para o céu, nem para a Nova Guiné – sem me dar mais uns minutos de esperança, uns carinhos no queixo e um descanso em teu ombro.

Olha aqui, vai. Eu tô me embolando as palavras, eu sei. Não porque eu sou confuso. Ok, eu sou confuso. Mas nem sempre. Não agora. Tá, agora eu posso estar um cado confuso. Mas é porque amar é, ao mesmo tempo, ter um dicionário a falar e não saber como. É como se meu cérebro desaprendesse qualquer idioma tolo. E eu fico aqui, gesticulando vírgulas que exigem a tua presença um pouco mais.

Fica, vai! Nesta semana, você anda tão triste que me aperta a alma. E eu não sei se você sabe, mas se estivesse comigo, cê seria mais feliz. Juro. Deu na TV, nos jornais, no tarot, no horóscopo, nas músicas e nos livros que ando lendo. Você gosta de ler, eu sei. Comecei a gostar porque vi você no ônibus viajando mais rápido naquelas páginas do que aquele motorista ruim de roda que faz o veículo parecer uma montanha russa. Sim, eu estava naquele ônibus. Dois bancos atrás de você. Não, não estou te perseguindo. Mas a gente sai a mesma hora da faculdade e minha casa fica a dois quarteirões da sua. Não sei onde você mora. Mas é que você sempre desce no mesmo ponto e vai para a mesma portaria que imaginei que ali fosse a tua casa.

Eu estou falando feito um doido, sem vírgulas ou pausas, inventando assuntos quaisquer porque estou morrendo de medo do silêncio oceânico que pode surgir e você desviar teus olhos dos meus, reparar na vizinhança, naquele moço de gravata cinza ou na senhorinha dando comida aos pombos, e, talvez, você reparando no moço de gravata cinza e na senhorinha dando comida aos pombos possa pensar que já não há mais nada a fazer aqui e decida ir embora porque não gosta de cinza, nem de pombos, nem de mim. Sei lá.
Cê tá com fome? Eu tenho um par de lábios e um tanto de sonhos que podem te alimentar. Juro. Como faz aquele macarrão que você gosta? Eu posso aprender, também. Mas te amo. E amar, além de ser algo que me deixa mais confuso, nervoso e gago, deve ser aprender a ser o mestre dos desejos do outro. Assim, só para te agradar, saber? Isso é amor. Você sabe. Ou acho que sabe. Mas, de qualquer forma, gostaria que soubesse que eu te amo. É, amor. Sem aqueles coraçõeszinhos infantis da quarta série. Ou musiquinha bonitinha por aqui. É amor. Ponto.

Entendeu alguma coisa? Não? Ok, perfeito assim. Se você entendesse, eu ficaria triste por ter conseguido explicar algo sem explicação. E é isso: de onde eu vim, sentimentos são inexplicáveis, mas explicam todo o resto. Amor é um sem sentido sentir e dar sentido a tudo. E este tudo, agora, é você. Juro.

Sobre o autor: Hugo Rodrigues tem 25 anos, é escritor, carioca, autor do livro “Um Sorriso de Oito Graus na Escala Richter”. Para ler mais textos dele, acesse: https://www.facebook.com/fanpagehr

Nas entrelinhas: Ao amor da minha vida


De verdade, meu bem, eu não acredito que você exista. E se já comecei pensando assim, boa coisa não vai sair dessa minha carta. O fato é que eu ando meio desacreditado, achando que toda a minha vida amorosa e essas coisas que a gente pode englobar nela são todas umas fraudes. Eu sou uma fraude, pra ser exato. Escrevo sobre amor, faço os outros acreditarem e nem eu mesmo acredito numa única palavra que sai da minha boca. Mas hoje eu estava pensando e cheguei à conclusão de que, se não for por amor, que seja por você.

Que eu te encontre num dia ensolarado, nublado, chuvoso, com névoa e te diga alguma coisa. Que eu te reconheça no momento exato em que puser meus olhos em você. E que você saiba que houve um encontro ali. Que você esteja vestida de vermelho, amarelo, azul, verde, preto e branco. Que você me ache engraçadinho, pelo menos. Quem sabe tímido, quem sabe babaca demais, quem sabe charmoso, quem sabe eu nem te chame a atenção. Mas que você me veja com bons olhos e eles encontrem os meus. Que eu acerte a cor dos seus olhos numa brincadeira qualquer. E que aí você perceba o quanto eu te enxergo em tão pouco tempo. Que você seja amiga de algum amigo, ou a gerente do banco, ou a colega de faculdade, ou a menina bonita da balada, ou filha da amiga da minha mãe. Que você se encante comigo de alguma maneira. Que você se permita me conhecer melhor e saber que eu sou legal, ou que sou interessante, ou que não tenho nada a acrescentar a você, ou que eu sou um completo egoísta, ou que eu tenho um blog bacana que fala dessas coisas bonitas que as pessoas acreditam. Mas que você não seja um ponto final. Que seja as aspas, as reticências, o parágrafo, o travessão. Que você seja.

Que você saiba como eu sou complicado, ou que eu sou desajeitado, ou que eu sei dançar muito bem, ou que eu piso no seu pé porque não sei andar em linha reta, ou que eu detesto o cheiro de queijo ralado. Mas que você decida ficar e me conhecer mais, seja por curiosidade ou porque acha que pode se encontrar no meio da minha bagunça. Que a gente se conheça aos poucos, aos muitos, aos tantos, aos beijos, aos toques, aos olhares, aos filmes de fim de tarde, aos cheiros de perfume novo, aos dias de dormir de conchinha, aos minutos de ligações intermináveis.  Que você possa contar comigo, possa dormir comigo, possa brigar comigo. Que você não se arrependa naqueles momentos em que a gente questiona o amor, que você tenha orgulho de me mostrar pras suas amigas e que elas tenham inveja de você. Que eu possa te trazer café na cama, te dar um beijo de surpresa, te ver sem maquiagem, te morder até você ficar sem graça. Que eu não seja odiado pelos seus pais, que eles não me chamem de filho, que seu irmão torça pro mesmo time que eu. Que você me queira como pai dos seus filhos, que você se orgulhe de mim, que você esteja linda quando entrar na igreja.

Que eu possa te fazer sonhar. Que eu possa realizar os teus maiores sonhos e te consolar caso alguma coisa dê errado no meio do caminho. Que eu não saia nunca do seu lado, nem quando você pedir. Que os seus dias de TPM sejam lembrados com risadas e justifiquem aqueles quilos a mais que você ganhar com o brigadeiro. Que você chore bastante. Chore de rir, chore de saudades, chore de alegria. Que eu possa garantir que você não vai se machucar. Que o nosso filho tenha os seus olhos, a sua boca, o seu nariz. Que ele me lembre todos os dias de você. Que a gente caia um pouco na rotina e não mude por isso. Que a gente saia da rotina e se encante com algumas aventuras de vez em quando. Que a gente saiba reconhecer o valor da companhia do outro. Que eu te ame como nunca amei ninguém e que você me modifique da maneira que o seu amor quiser.

Mais importante que isso tudo: que você exista. E que não demore tanto pra chegar na minha vida.

Sobre o autor: Daniel Bovolento é um carioca, redator publicitário. Atualiza o Entre Todas as Coisas, escrevendo textos sobre amor, comportamento e cia. 

Nas entrelinhas: "Mudança"



Sente-se em outra cadeira, no outro lado da mesa. Mais tarde, mude de mesa. Quando sair, procure andar pelo outro lado da rua. Depois, mude de caminho, ande por outras ruas, calmamente, observando com atenção os lugares por onde você passa. Tome outros ônibus. Mude por uns tempos o estilo das roupas. Dê os seus sapatos velhos. Procure andar descalço alguns dias. Tire uma tarde inteira para passear livremente na praia, ou no parque, e ouvir o canto dos passarinhos. Veja o mundo de outras perspectivas. Abra e feche as gavetas e portas com a mão esquerda. Durma no outro lado da cama... Depois, procure dormir em outras camas. Assista a outros programas de tv, compre outros jornais... leia outros livros. Viva outros romances. Não faça do hábito um estilo de vida. Ame a novidade. Durma mais tarde. Durma mais cedo. Aprenda uma palavra nova por dia numa outra língua. Corrija a postura. Coma um pouco menos, escolha comidas diferentes, novos temperos, novas cores, novas delícias. Tente o novo todo dia. O novo lado, o novo método, o novo sabor, o novo jeito, o novo prazer, o novo amor. A nova vida. Tente. Busque novos amigos. Tente novos amores. Faça novas relações. Almoce em outros locais, vá a outros restaurantes, tome outro tipo de bebida, compre pão em outra padaria. Almoce mais cedo, jante mais tarde ou vice-versa. Escolha outro mercado... outra marca de sabonete, outro creme dental... Tome banho em novos horários. Use canetas de outras cores. Vá passear em outros lugares. Ame muito, cada vez mais, de modos diferentes. Troque de bolsa, de carteira, de malas, troque de carro, compre novos óculos, escreva outras poesias. Jogue os velhos relógios, quebre delicadamente esses horrorosos despertadores. Abra conta em outro banco. Vá a outros cinemas, outros cabeleireiros, outros teatros, visite novos museus. Mude. Lembre-se de que a Vida é uma só. E pense seriamente em arrumar um outro emprego, uma nova ocupação, um trabalho mais light, mais prazeroso, mais digno, mais humano. Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as. Seja criativo. E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa, longa, se possível sem destino. Experimente coisas novas. Troque novamente. Mude, de novo. Experimente outra vez. Você certamente conhecerá coisas melhores e coisas piores do que as já conhecidas, mas não é isso o que importa. O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia. Só o que está morto não muda ! Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena!

Sobre a autora: Clarice Lispector, nascida Haia Pinkhasovna, Lispector (Tchetchelnik, 10 de dezembro de 1920 — Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 1977) foi uma escritora e jornalista brasileira, nascida na Ucrânia e naturalizada brasileira. 

Nas entrelinhas: "Eu sei, mas não devia!"



Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.


Sobre a autora: Marina Colasanti (Asmara, 26 de setembro de 1937) é uma escritora e jornalista ítalo-brasileira nascida na então colônia italiana da Eritreia. Ainda criança sua família voltou para a Itália de onde emigram para o Brasil com a eclosão da Segunda Guerra Mundial. No Brasil estudou Belas-Artes e trabalhou como jornalista, tendo ainda traduzido importantes textos da Literatura italiana. Como escritora, publicou 33 livros, entre contos, poesia, prosa, literatura infantil e infanto-juvenil. Seu livro de contos "Uma ideia toda azul" recebeu o prêmio O Melhor para o Jovem, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. É casada com o também escritor Affonso Romano de Sant'Anna, e irmã do ator Arduíno Colassanti. Em 2010, recebeu o Prêmio Jabuti pelo livro Passageira em trânsito.


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