Nas entrelinhas: É só saudade


Sabe… Às vezes dói lá no fundo. Em uma parte do meu coração que eu insisto em esconder para todo o mundo que existe. Hoje foi mais um daqueles dias. Aconteceu. Sonhei com você. Sonhei que tínhamos voltado a nos falar, só isso. Não éramos namorados, amantes ou sequer nos amávamos  Mas nós éramos amigos, como sempre fomos antes de tudo dar errado. Será que você também sente falta? Eu sinto. Sinto falta das coisas simples, do seu sorriso, do seu cheirinho e do seu jeito bobo de dizer que me amava mesmo quando eu não queria saber o que era amor. O problema foi que eu descobri o que era amar tarde demais.
Descobri que te amava quando te perdi. Parece clichê, mas foi. Nós fomos um filme americano – daqueles bem clichês – que eu não me cansaria de assistir. Exceto pela parte em que não tivemos final feliz. Não tivemos final algum. Não sentamos em uma mesa e decidimos que seria melhor assim. Não houve lágrimas, apelos e nem confissões de última hora. Nós apenas nos afastamos, como quem não aguenta mais sofrer e amar ao mesmo tempo. Nos afastamos achando que um dia a vida nos colocaria juntos de novo. Mas sabe qual o nosso problema? Somos exatamente iguais. Você talvez um pouco mais sentimental. Eu talvez um pouco menos vingativa. Mas no fim do dia, os dois acham que merecem um pedido de desculpas. E eu não tenho o costume de pedir desculpas a ninguém. Me arrepender, só do que não fiz.

Então eu te deixei livre. Te deixei partir. Desejei um infinito de coisas boas que não desejo nem para mim. Baixinho, pedi para que você fosse muito feliz. Torci para que você encontrasse uma garota que soubesse valorizar tudo aquilo que eu não valorizei. Não tenho rancor, ódio ou qualquer outro sentimento ruim. De você restou apenas saudade. Uma saudade boa. Às vezes forte demais. Às vezes esquecida. Confesso que hoje estou sentimental além da conta. Mas me perdoa vai, é que eu acordei com saudade.

Eu não espero que você um dia me perdoe, até porque eu nunca te perdoei. Mas eu sei, que lá no fundo, você também sente a mesma saudade.

Sobre a autora: Isabela Freitas é escritora, blogueira, e exagerada. Louca por histórias de amor, desenhos animados, e bichinhos de rua. Prega o desapego às coisas que não lhe fazem bem, e acredita que o otimismo e palavras bonitas podem mudar vidas. E aí, pronto para mudar a sua? http://isabelafreitas.com.br

Nas entrelinhas: "Eu sei, mas não devia!"



Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.


Sobre a autora: Marina Colasanti (Asmara, 26 de setembro de 1937) é uma escritora e jornalista ítalo-brasileira nascida na então colônia italiana da Eritreia. Ainda criança sua família voltou para a Itália de onde emigram para o Brasil com a eclosão da Segunda Guerra Mundial. No Brasil estudou Belas-Artes e trabalhou como jornalista, tendo ainda traduzido importantes textos da Literatura italiana. Como escritora, publicou 33 livros, entre contos, poesia, prosa, literatura infantil e infanto-juvenil. Seu livro de contos "Uma ideia toda azul" recebeu o prêmio O Melhor para o Jovem, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. É casada com o também escritor Affonso Romano de Sant'Anna, e irmã do ator Arduíno Colassanti. Em 2010, recebeu o Prêmio Jabuti pelo livro Passageira em trânsito.


Nas entrelinhas: "Retrato falhado"


Procura-se vivo ou sentindo minha falta, alguém que muito amei. Alguém que se foi e eu nunca aceitei. Procura-se o fim. Procura-se e recompensa-se porque é dele - do fim - a culpa de cada letra de música, roteiro de filme, texto de teatro, script de novela, tema literário e do peso da saudade que eu carrego. O fim. O fim de semana para suportar a semana inteira no trabalho. O fim do semestre para suportar cada dia de aula. O fim da refeição para vir a sobremesa, para tolerar cada coisa que a gente não gosta, mas engole para ser saudável. O fim do ano para a garantida ilusão do fim do que não está bom e de mais uma dose do que está bem. E com o amor? O fim do amor para vir a saudade? O fim da saudade para vir o amor? Ou o fim da dor para ir a saudade e chegar outro amor? Enquanto tento responder eu penso que não é o fim que dói é a impossibilidade de voltar ao começo, de revisitar o meio, de poder reviver só por um dia aquilo que era vida e hoje se reduziu a lembrança. Lembrança é bom quando traz esperança, não saudade, pode anotar isso aí. Aproveita e anota também como era quem amei, desenha cada traço dele, faz um retrato falado e escreve que há recompensa. Eu recompenso fazendo feliz, sendo feliz, será que basta? Pode ser que não. Não, não venha me dizer que já é hora de esquecer, não tem relógio para o que a gente sente e eu nunca fui pontual. Desenhe aí o rosto da pessoa mais linda do mundo e escreva "te procura alguém que te amou sem motivo". Sem motivo, e quando é sem motivo a gente fica sem razão para deixar de gostar. O melhor motivo para amar alguém é simplesmente não saber o motivo ou não ter motivos para não amar. Poderia te explicar cada pedaço dele, cada detalhe do rosto, cada traço da boca, dos olhos, mas a verdade é que eu não sei mais como ele está. Pode ser que a pessoa que eu conheci e procuro seja completamente diferente da pessoa que hoje existe. Não vai dar certo pendurar um retrato falhado, procurando alguém que amei e não sei como achar, dando ilusão à saudade ao invés de pôr nela um fim. Faça, então, o seguinte, desenhe a mim, me reproduza nesta folha com exatidão. Vou colocar junto uma foto minha antiga para ele se lembrar de mim e, se ainda me amar, ter como me procurar e me encontrar. Vai ver é isso, ele já me procurou, já me encontrou, mas não sabia que era eu, faz tanto tempo... Faça esse desenho e disfarce em seu rabisco qualquer tristeza que eu carregue, senão quando ele me ver não vai me reconhecer, eu vou ficar tão feliz quando ele voltar que se me pôr como estou agora na figura, vai pensar que não sou eu. Promete que procura por mim e entrega a ele o meu retrato para se ele, um dia, resolver me procurar. Melhor assim, sem forçar, deixando livre. É que talvez, no fundo, eu nunca deixe de esperar, mas aceite ele não vir. E se não me procurar que venha logo o fim, o fim, sem fingir. Pois nem sempre que termina acaba, compreende? Mas venha o fim se quem amei não vier. A vida ensina que quando o amor termina é só para vir algo maior . Tudo tem fim, até o fim, por isso, assim, com o fim do fim a gente pode recomeçar e dar um jeito de tratar de ser feliz. Procura-se...

Sobre o autor: Ruleandson do Carmo comanda o blog "Eu só queria um café..."  com crônicas de amor, entrevistas sobre amor e comportamento, além da participação do leitor. Aos 27 anos, nasceu e vive em BH/MG, é jornalista, Mestre e Doutorando em Ciência da Informação pela UFMG, especialista em Criação e Produção para Mídia Eletrônica pelo UniBH. É ainda o personagem sem roteiro de uma comédia romântica sem fim e o vazio que une amores de cinema aos amores reais. 

Nas entrelinhas: O homem mais bonito do mundo."


Uma vez eu conheci o homem mais bonito do mundo. Eu estava sentada no chão de uma festa com pocinhas. Toda festa de jornalista forma pocinhas, pode reparar. E ele veio falar comigo "vai molhar a calça". Ah, mas vou mesmo.Se tratava do homem mais bonito do mundo, eu não tinha nenhuma dúvida. Quem poderia ser mais bonito do que ele?Javier Bardem? Não. Basta vê-lo no filme da cólera pra saber o potencial que ele tem pra feiúra. O Brad Pitt? Eu prefiro os morenos. O Jesus Luz? Acho fraco, ele tem aquele lapso de vergonha suburbana no branco dos olhos. Não gosto de homem que se sente devendo algo ao cosmos. Homem que faz pose de topo de cadeia alimentar mas sofre as dores de uma coluna ainda arredondada pelo começo da evolução.Enfim, tratava-se do homem mais bonito do mundo. E ele veio falar comigo. E eu estava sentada no chão. E ali mesmo trocamos uns beijos e telefones e confissões e eu lembro que, apesar de estar com muito sono e cansaço e desesperança com a vida, fiquei tentando descobrir o que um homem daquele nível supremo de beleza (um metro e noventa, olhos azuis, cabelos castanhos cacheados, ombros que iam até o Chile) tinha visto numa garota bem mediana que estava sentada no chão em um dos dias de menor brilho de sua carreira social.Apliquei o teste do cotovelo durante o beijo (a leve roçadinha sem querer pra saber se o membro promete ou não promete). Apliquei o teste da sapiência média (você comenta que quando você olha pro abismo, o abismo olha pra você, e espera pra ver se ele tem alguma cultura de filosofia de almanaque). Apliquei o teste da bobeira erudita, uma merda qualquer que você lança no ar tipo "ai que vontade de chafurdar por essas lamas universais" e se o cara for minimamente interessante ele compra a besteira e devolve uma outra melhor ainda. Se ele for um tapado ele ri e fala algo idiota tipo "quero o mesmo que você está tomando" e daí você sabe que está, novamente, sozinho no mundo. Como sempre.E ele, do alto de sua absurda e dolorosa beleza, foi tirando nota sete e meio em todos os quesitos. Devolveu uma besteira à altura, conhecia frases pessimistas perfeitas para uma noite estrelada e passou com certo louvor no teste do cotovelo.No dia seguinte, já pela manhã, chegou uma mensagem de texto do homem mais bonito do mundo "quero te ver". E foi então que resolvi pedir ajuda. Juntei a mulherada em casa. E todas nós, em silêncio, começamos a "googla-lo". Até que uma foto bem grande, dele só de bermuda, sorrindo, ocupou a tela inteira e o coração de todas nós. Algumas suspiraram. Algumas tiveram ataque de riso nervoso. Uma ficou bem irritada e foi embora. Outras me olharam com a miopia bem apertada tentando descobrir que é que eu tinha pra merecer aquilo tudo. Ele era realmente o homem mais bonito do mundo. No dia seguinte, já pela manhã, chegou uma mensagem de texto do homem mais bonito do mundo "quero te ver". E foi então que resolvi pedir ajuda. Juntei a mulherada em casa. E todas nós, em silêncio, começamos a "googla-lo". Até que uma foto bem grande, dele só de bermuda, sorrindo, ocupou a tela inteira e o coração de todas nós. Algumas suspiraram. Algumas tiveram ataque de riso nervoso. Uma ficou bem irritada e foi embora. Outras me olharam com a miopia bem apertada tentando descobrir que é que eu tinha pra merecer aquilo tudo. Ele era realmente o homem mais bonito do mundo. Todas concordaram. Não existe homem mais bonito do que esse e talvez nunca existirá. E, ao que tudo indica, trabalhador, com amigos do bem, amante da natureza e das crianças. A ficha.com estava limpíssima.  Mas você viu se ele Vi, vi, sim, ele passou no teste do cotovelo. Burro? Não. Então o quê hein? Pois é, amigas tão honestas, eu também não sei o que ele viu em mim. Tentaram uma última explicação, olhando para os meus pés "ah, vai ver ele gosta de sexo bizarro". É, vai ver. Outra explicou assim "ah, tem tanto casal que a gente vê e não se conforma".Pois é.Fiquei quarenta e sete dias com o homem mais bonito do mundo. Todo mundo olhava pra ele. Homens, mulheres, velhinhos, crianças, cachorros, pombas, formigas. Ele poderia ter qualquer uma das anjinhas da Victoria's Secret (caso além de perfeito fosse trilhardário também...não era o caso, mas era bem de vida) mas preferia estar comigo.Ele definitivamente não tinha nenhum problema sexual, aliás, muito pelo contrário: fazia parte do seletíssimo grupo de homens que, apesar de não fazer feio em medidas, são adeptos do sexo minimalista (aquele que sabe o valor da delicadeza pontual, ritmada, paciente e amorosa), entendia os filmes do Reserva Cultural e me explicava as palavras mais difíceis das músicas do Radiohead. Tudo ia muito bem até que um dia, na fila pra comprar uma bomba de chocolate numa rua de Higienópolis, eu resolvi explodir aquela relação. Ele era tão bonito que me...que me...que...sei lá. Lembro que na hora pensei algo assim "ah, má vá ser bonito assim lá na puta que o pariu". E ele foi.

Sobre a autora: Tati Bernardi, como é mais conhecida, nasceu em 1979 em São Paulo e formou-se em Propaganda e Marketing pela Universidade Mackenzie. Além da publicidade, Tati também dedica-se a literatura, já tendo quatro livros publicados, sendo os mais conhecidos: "A mulher que não prestava" e "Tô com vontade de alguma coisa que eu não sei o que é". Tati Bernardi consagrou-se com seu site, onde a maior parte do público são mulheres. Além disto, Tati também é colunista e cronista de revistas, como a Viagem & Turismo, blogueira e redatora da TV Globo. Além disto, fez cursos de pós-gradução na área de roteiro e cinema, e trabalhou muitos anos como redatora publicitária nas principais agências de propaganda de São Paulo, tais como W/Brasil, Talent, Leo Burnett e AgênciaClick.

Nas entrelinhas: Tempo + espaço = sinto sua falta.




***
Ele disse que precisava de espaço.

***
Ela me pediu um tempo.

***
Eu não sei. Na hora pareceu uma boa saída, sabe? Estava tão cansada. No redemoinho da situação, no calor da hora a gente fala um monte de bobagem, troços que intimamente pensamos, mas não cabe dizer. Eu não queria dar um tempo, eu só queria terminar com aquela gritaria, fugir, sei lá, virar pó, desmaiar, qualquer coisa. Ele não precisava ouvir algumas coisas que eu disse. Sei que o magoei.

***
Bom, foi ela quem pediu, não foi? O que eu poderia fazer a respeito? Em princípio, ficou decidido uns trinta dias. Eu não sei se vai resolver, esse mês longe. Mas o que a gente iria fazer? Acabar esganando um ao outro, ao mesmo tempo. Naquele dia pareceu a melhor solução. Agora eu já não sei mais.

***
Eu odeio quando ele mente. Tudo bem, quando ele omite, mas para mim é a mesma coisa. Passa tempos sem mostrar entusiasmo por nada e aí eu o pego falando sobre um novo projeto com algum amigo. Isso me deixa pé-da-vida. Parece que ele não me quer por perto, que não mereço esse tipo de atenção da parte dele.

***
Para uma garota, eu acho ela muito fechada. Pô, passei décadas tentando compreender uma mulher, saindo com elas, para quando eu morasse com uma, eu soubesse o que fazer. E agora isso, parece que estou namorando o Kimi Raikkonen. Ela é estranha, nunca demonstra nenhuma insatisfação, nunca faz uma cena de ciúme, não chora em filmes. Nunca sei como agir, é como se meu time jogasse sem centroavante, sabe? Fico sem referência.

***
Sinto falta dele me pegando, de surpresa, como uma qualquer que conheceu na rua. Não sou muito romântica, dessas de jantar à luz de vela e toda essa parafernália. Por mim, a gente pula para a cena de sexo. Ele diz que eu tenho muita testosterona, às vezes brinca de me pedir emprestado. Ele acha que a gente não precisa fazer todos os dias. Uma vez ele veio com um papo freudiano ridículo de que os homens intelectualizados precisam de novidades, por isso sentem menos tesão. Mandei ele se foder, mas o palhaço disse que estava sem vontade. Pode?

***
Eu acho o sexo supervalorizado dentro de uma relação. E ela me cobra isso o tempo todo, às vezes força a barra por uma novidade. Um dia eu ri da lingerie dela, achei horrorosa, parecia uma asa-delta, uma alegoria de fevereiro. E o pior é que ela pôs todas as expectativas naquilo. Sabe, por mim aquela peruca rosa-choque da Natalie Portman em Closer já seria o bastante. Você também acha, não é? Não gosto da sexualidade previsível. Sei lá. Sei que quando a gente faz é bom. Pra mim. Pra ela, não sei. Seria educado da parte dela fingir uns orgasmos de vez em quando.

***
A última vez que senti que precisava dele? No show do Bob Dylan que ele não quis ir comigo, achou o ingresso muito caro pra quem não curte muito Bob Dylan. Bom, eu disse que ia sozinha e fui, não quis nem saber. Chorei o setlist inteiro, com ênfase em “You Belong To Me”. E o engraçado é que nunca choro na frente dele, ele deve me achar uma dinossaura insensível. Ah, se o espelho do banheiro falasse. Era meu sonho ver o cara e eu queria que ele estivesse comigo lá. Foi quando eu me dei conta. Preciso de quem amo para compartilhar tudo aquilo que sonhei. Ou não faz sentido.

***
Foi quando meu pai morreu. Mas eu não quero falar sobre isso. Teve a vez que eu planejei morar um tempo na França. Era o sonho da minha vida, comer crepe, fumar cachimbo, passear pelo Arco do Triunfo, navegar pelo Sena, ler Flaubert e Rimbaud. Ela achou a ideia legal, mas não se animou. Foi quando eu vi que, insistindo com o plano, ela acabaria me dizendo que ia ficar no Brasil. Seria o fim. Eu desisti do meu sonho por ela, eu queria ficar com ela e não me arrependo. A gente sonha sozinho pra depois realizar com alguém. Complicado isso.

***
Do que eu tenho medo? Deixa eu ver. Sei lá, de repente de chegar um dia e ver que foi tudo em vão, que não valeu a pena, cada gesto ou cada ação, cada investimento e concessão. Sabe aquela cena clássica no restaurante? Os dois jantando em silêncio, a mulher olhando para os lados atrás de casais iniciantes, mais felizes e vivazes que o relacionamento dela, o homem com o olhar atrás de um traseiro mais durinho. Eu tenho medo de um dia acordar e sentir que acabou.

***
Não tenho medo de nada, eu acho. Talvez dela perceber que, na verdade, eu sou um fraco. Sabe, cara, eu convivo diariamente com essa sensação de que ela merece alguém melhor, capaz de protegê-la de verdade, dar-lhe um centro, uma vida, talvez uma família. Ela jamais ouvirá da minha boca, mas eu não me acho suficiente. É isso, meu medo é que ela descubra sozinha. Acho que tenho medo mesmo é dela inteira, mais do que, sei lá, de assalto ou de avião. O que é estranho, porque ela é tão pequenina e delicada e inofensiva.

***
Ah, ele cozinha bem. Eu adoro quando ele fica vagando pela casa, entrando de quarto e saindo de quarto, com aquela calça de moletom cinza, meia e havaianas, e aquela camiseta centenária do Kurt Cobain que ele não vive sem. É quando eu me sinto em casa, num lar, é quando me dou conta que, apesar de tudo, eu sou feliz. Aí eu coloco uma chaleira no fogo, ela apita e ele aparece de repente, na cozinha, todo quieto e escabelado feito um menininho. Eu reclamo disso o tempo todo, mas é aquele silêncio que me traz paz.

***
Ela tem uma bunda maravilhosa. Mas, sério. Eu gosto quando ela adormece no sofá e depois faz manha para ir deitar na cama. Aí eu a pego no colo, tiro cada peça de roupa, exceto a calcinha e as meias. Ela sente frio nos pés, até no verão. Não sei, eu me sinto poderoso e acolhedor. Então ela pede que eu a abrace de conchinha, ao menos até pegar no sono. Cara, eu odeio dormir de conchinha, detesto aqueles fios soltos de cabelo pinicando meu nariz. Mas adoro o cheiro que ela tem na nuca e ficar colado naquela bunda. Não sei como resolver isso.

***
Não acredito em almas gêmeas ou frutas pela metade, mas eu acho que a gente se pertence, de alguma forma. Eu sou dele, sempre vou ser, mesmo que me apaixone ou sinta tesão por outra pessoa. Não me importo que nesse meio tempo ele conheça outra garota, desde que não transe com ela. Sabe, eu amo ele, de verdade. Que bobagem que eu fiz. Não quero dar tempo nenhum. Olha, sei que pedi pra você passar na noite aqui, mas eu preciso ligar, saber como ele está. Você não vai me achar uma idiota? Então é isso que eu vou fazer.

***
E se nesse tempo ela conhecer outro? Azar, que se foda. Eu vou até lá. O apartamento também é meu. Sei que estou sendo contraditório, mas como não ser? Eu amo ela. É a minha garota e pronto. Não tem como fugir disso. Eu disse que precisava de espaço, ganhei o espaço e agora estou ouvindo os ecos da minha própria voz gritando o nome dela. Bonito isso que eu disse, né? Tem papel e caneta? Quero anotar pra ter o que dizer quando chegar lá.

Sobre o autor: Gabito Nunes nasceu em 1982. Autor de outros quatro livros de crônicas e contos, entre eles A Manhã Seguinte Sempre Chega e Não Sou Mulher de Rosas. Originário da geração de blogs de criação literária, ganhou o prêmio Top Blog de literatura (júris popular e acadêmico) e atualmente escreve o folhetim online Juliete Nunca Mais. Leitor de John Fante, Jack Kerouac, Nick Hornby, Charles Bukowski, Woody Allen, J. D. Salinger, Milan Kundera, Caio Fernando Abreu e Marcelo Rubens Paiva. Ouvinte de Beatles, Bob Dylan, The Smiths, Beck e Radiohead. Escritor de prosa de ficção, Ao Norte de Mim Mesmo é seu primeiro romance. Gabito Nunes nasceu e mora em Porto Alegre/RS.

Nas Entrelinhas: "Felicidade Realista "



A princípio bastaria ter saúde, dinheiro e amor, o que já é um pacote louvável, mas nossos desejos são ainda mais complexos. Não basta que a gente esteja sem febre: queremos, além de saúde, ser magérrimos, sarados, irresistíveis. Dinheiro? Não basta termos para pagar o aluguel, a comida e o cinema: queremos a piscina olímpica e uma temporada num spa cinco estrelas. E quanto ao amor? Ah, o amor… não basta termos alguém com quem podemos conversar, dividir uma pizza e fazer sexo de vez em quando. Isso é pensar pequeno: queremos AMOR, todinho maiúsculo. Queremos estar visceralmente apaixonados, queremos ser surpreendidos por declarações e presentes inesperados, queremos jantar a luz de velas de segunda a domingo, queremos sexo selvagem e diário, queremos ser felizes assim e não de outro jeito. É o que dá ver tanta televisão. Simplesmente esquecemos de tentar ser felizes de uma forma mais realista. Ter um parceiro constante pode ou não, ser sinônimo de felicidade. Você pode ser feliz solteiro, feliz com uns romances ocasionais, feliz com um parceiro, feliz sem nenhum. Não existe amor minúsculo, principalmente quando se trata de amor-próprio. Dinheiro é uma benção. Quem tem, precisa aproveitá-lo, gastá-lo, usufruí-lo. Não perder tempo juntando, juntando, juntando. Apenas o suficiente para se sentir seguro, mas não aprisionado. E se a gente tem pouco, é com este pouco que vai tentar segurar a onda, buscando coisas que saiam de graça, como um pouco de humor, um pouco de fé e um pouco de criatividade. Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável. Fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o estrelato, amar sem almejar o eterno. Olhe para o relógio: hora de acordar. É importante pensar-se ao extremo, buscar lá dentro o que nos mobiliza, instiga e conduz, mas sem exigir-se desumanamente. A vida não é um jogo onde só quem testa seus limites é que leva o prêmio. Não sejamos vítimas ingênuas desta tal competitividade. Se a meta está alta demais, reduza-a. Se você não está de acordo com as regras, demita-se. Invente seu próprio jogo. Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade. Ela transmite paz e não sentimentos fortes, que nos atormenta e provoca inquietude no nosso coração. Isso pode ser alegria, paixão, entusiasmo, mas não felicidade.

Sobre a autora: Martha Medeiros, filha de José Bernardo Barreto de Medeiros e Isabel Mattos de Medeiros, é colunista do jornal Zero Hora de Porto Alegre, e de O Globo, do Rio de Janeiro. Casou-se com o publicitário Luiz Telmo de Oliveira Ramos e tem duas filhas. Estudou no Colégio Nossa Senhora do Bom Conselho, tradicional de Porto Alegre, localizado nos arredores do bairro Moinhos de Vento. Formou-se em 1982 na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), em Porto Alegre. Trabalhou em propaganda e publicidade, mas logo se sentiu frustrada com a carreira. Quando seu marido recebeu uma proposta de trabalho no Chile, decidiu que uma mudança de país seria uma ótima oportunidade para dar um tempo na profissão. Esta estada de nove meses no Chile, na qual passou escrevendo poesia, acabou sendo um divisor de águas na sua vida. Quando voltou para Porto Alegre, começou a escrever crônicas para jornal e, a partir daí, sua carreira literária deslanchou.

Nas entrelinhas: Ele



Depois de um bom tempo dizendo que eu era a mulher da vida dele, um belo dia eu recebo um e-mail dizendo “olha, não dá mais”. Tá certo que a gente tava quase se matando e que o namoro já tinha acabado mesmo,mas não se termina nenhuma história de amor (e eu ainda o amava muito) com um e-mail, não é mesmo? Liguei pra tentar conversar e terminar tudo decentemente e ele respondeu “mas agora eu to comendo um lanche com amigos”. Enfim, fiquei pra morrer algumas semanas até que decidi que precisava ser uma mulher melhor para ele. Quem sabe eu ficando mais bonita, mais equilibrada ou mais inteligente, ele não voltava pra mim? Foi assim que me matriculei simultaneamente numa academia de ginástica, num centro budista e em um curso de cinema. Nos meses que se seguiram eu me tornei dos seres mais malhados, calmos, espiritualizados e cinéfilos do planeta. E sabe o que aconteceu? Nada, absolutamente nada, ele continuou não lembrando que eu existia. Aí achei que isso não podia ficar assim, de jeito nenhum, eu precisava ser ainda melhor pra ele, sim, ele tinha que voltar pra mim de qualquer jeito. Decidi ser uma mulher mais feliz, afinal, quando você é feliz com você mesma, você não põe toda a sua felicidade no outro e tudo fica mais leve. Pra isso, larguei de vez a propaganda, que eu não suportava mais, e resolvi me empenhar na carreira de escritora, participei de vários livros, terminei meu próprio livro, ganhei novas colunas em revistas, quintupliquei o número de leitores do meu site e nada aconteceu.Mas eu sou taurina com ascendente em áries, lua em gêmeos e filha única Eu não desisto fácil assim de um amor, e então resolvi que eu tinha que ser uma super ultra mulher para ele, só assim ele voltaria pra mim. Foi então que passei 35 dias na Europa, exclusivamente em minha companhia, conhecendo lugares geniais, controlando meu pânico em estar sozinha e longe de casa, me tornando mais culta e vivida. Voltei de viagem e tchân, tchân, tchân, tchân: nem sinal de vida. Comecei um documentário com um grande amigo, aprendi a fazer strip, cortei meu cabelo 145 vezes, aumentei a terapia, li mais uns 30 livros, ajudei os pobres,rezei pra Santo Antonio umas 1.000 vezes, torrei no sol, fiz milhares de cursos de roteiro, astrologia e história, aprendi a nadar, me apaixonei por praia, comprei todas as roupas mais lindas de Paris.Como última cartada para ser a melhor mulher do planeta, eu resolvi ir morar sozinha. Aluguei um apartamento charmoso, decorei tudo brilhantemente, chamei amigos para a inauguração, servi bom vinho e comidinhas feitas, claro, por mim, que também finalmente aprendi a cozinhar.Resultado disso tudo: silêncio absoluto.O tempo passou, eu continuei acordando e indo dormir todos os dias querendo ser mais feliz para ele, mais bonita para ele, mais mulher para ele. Até que algo sensacional aconteceu. Um belo dia eu acordei tão bonita, tão feliz, tão realizada, tão mulher que eu acabei me tornando mulher demais para ele. Ele quem mesmo?

Sobre a autora: Martha Medeiros, filha de José Bernardo Barreto de Medeiros e Isabel Mattos de Medeiros, é colunista do jornal Zero Hora de Porto Alegre, e de O Globo, do Rio de Janeiro. Casou-se com o publicitário Luiz Telmo de Oliveira Ramos e tem duas filhas. Estudou no Colégio Nossa Senhora do Bom Conselho, tradicional de Porto Alegre, localizado nos arredores do bairro Moinhos de Vento. Formou-se em 1982 na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), em Porto Alegre. Trabalhou em propaganda e publicidade, mas logo se sentiu frustrada com a carreira. Quando seu marido recebeu uma proposta de trabalho no Chile, decidiu que uma mudança de país seria uma ótima oportunidade para dar um tempo na profissão. Esta estada de nove meses no Chile, na qual passou escrevendo poesia, acabou sendo um divisor de águas na sua vida. Quando voltou para Porto Alegre, começou a escrever crônicas para jornal e, a partir daí, sua carreira literária deslanchou.

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